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sábado, 10 de março de 2012

Faxineira junta dinheiro e compra apartamento de frente para o mar


Com um bom humor e muita disposição, Rita construiu um patrimônio de dar inveja. Ela comprou um apartamento de 155 metros quadrados.

Itapema, SC
O ritmo é forte. O serviço é pesado. Mas a aposentada Rita Graczyk sempre foi uma daquelas pessoas apaixonadas pelo trabalho. “Eu gosto. Imagina se eu não gostasse. Gosto muito”, diz.
Ela aprendeu a combinar capricho e economia. “Não é o produto que limpa, mas sim o esfregar, o capricho e a boa vontade”, resume.
Rita costumava fazer 14 faxinas por semana. Ela limpava uma casa de manhã e outra à tarde. No sábado, ainda deixava os corredores e as escadarias de três prédios brilhando. Como ela conseguia fazer tanta coisa em tão pouco tempo?
“Acelerando e trabalhando sempre em cima do relógio”, responde. “Tudo eu economizo, até meu tempo.”
Para varrer a casa? Quinze minutos. Para tirar o pó? Vinte minutos. Para lavar o banheiro? Mais 20. O passo acelerado é outro segredo de economia de Rita.
“Sempre fui trabalhar a pé. Nunca utilizei ônibus. Nunca fui de carro, sempre a pé. Ando até 40 minutos, mas o segredo era levantar mais cedo para chegar no horário”, conta.
Com um bom humor danado e muita disposição, a faxineira construiu um patrimônio de dar inveja. A duas quadras de uma das praias mais badaladas de Santa Catarina está o apartamento de 155 metros quadrados que Rita também limpa com gosto, mas por puro prazer: no local, ela faz o papel da dona de casa.
"Quando eu vim morar para cá, eu me beliscava. Será que isso é nosso mesmo? Será que isso não era um sonho?", lembra Rita.
Para comprar a beleza de apartamento, Rita não pediu dinheiro em banco. Fez uma "matemática".
“Nós guardamos dinheiro, compramos três terrenos, esperamos os terrenos valorizar e depois vendemos e pagamos com mais um pouco de dinheiro que nós juntamos. Foi o que a gente fez”, explica.
Na época, ela ainda deu um jeitinho de não vender o antigo apartamento. Viu nele uma boa fonte de renda. “Não se deve vender o que a gente tem. A gente tem que adquirir para comprar outro, não vender”, ensina.
A lógica de Rita não parece lição de economia? Ela completou 60 anos e há dois meses decidiu parar de fazer faxina na casa dos outros. Mas só pôde se dar ao luxo porque a vida inteira controlou cada tostão. Ela nunca atrasou uma conta.
“Se você deixa hoje atrasar, amanhã tem duas. O condomínio é a mesma coisa. Você tem desconto de 20% pagando em dia. Você junta o ano todo, consegue pagar as duas últimas parcelas só com o desconto que teve durante o ano”, explica.
A filha, a pedagoga Josiani Graczyk, aprendeu com o exemplo: “Não pode gastar mais do que tem. Isso não pode.”
Rita só faz compras à vista. Teve paciência para juntar dinheiro e pagou todos os eletrodomésticos do apartamento novo de uma vez só. Faturou um desconto de R$ 1.050 mil. “Dá para dizer que praticamente a máquina de lavar roupa veio de graça”, reflete.
Ela não usa cheque nem cartão de crédito. Comida, ela sempre faz em casa. Ela precisa pensar para se lembrar da última vez que foi a um restaurante. “Agora lembro. Nós fomos comer fora quando a gente fez 25 anos de casado. Isso faz uns seis anos. Isso aí ajuda muito na economia de cada um, por isso a gente consegue comprar as coisas. Não é porque ganha um monte de dinheiro, não.”
Na hora de comprar roupa, Rita ensina: para fazer economia, é preciso gastar um pouco mais. “Eu compro roupa boa, pago um pouquinho mais caro, lavo ela no tanque, não coloco na máquina. Posso até botar para centrifugar e depois eu passo ela do avesso. A roupa dura mais.”


Rita cobrava R$ 50 por faxina. Juntando o salário dela com o do marido, que é pedreiro, a soma chegava perto de R$ 3 mil. Rita pode se esbaldar agora porque sabe direitinho quanto custa ganhar e guardar o dinheiro.

“Você vai trabalhar, acha seu trabalho tão pesado e aí você gasta à toa? Não pode”, ressalta.
O aposentado Valfredo Schmitt também é da turma que economiza no centavo. Ele conta até vantagem na padaria! “Dei uma moeda de R$ 1 e ela me voltou com R$ 0,50. Estou no lucro com R$ 0,03”, calcula. “Já fiz minha economia do dia. Ou parte da economia.”
Esse jeito de levar a vida rendeu uma fama e tanto: “Chorão”, define a dona de loja. “Casquinha”, diz a dona da padaria Bernadete Maria Boss.
Valfredo e a mulher ganharam a vida como operários de indústria têxtil. Ele recebia pouco mais de dois salários mínimos por mês, o equivalente, hoje, a R$ 4 por hora. Ela, também. Juntos, definiram um limite: os gastos da casa não podiam ultrapassar a renda de um deles - o salário do outro virava poupança.
“Eu trabalhava em média 24, 25, 26 horas por semana de hora extra”, lembra Valfredo.
Para comprar a primeira casa própria, Valfredo passou três anos folgando apenas uma vez por mês. Oportunidades para economizar? Ele sempre viu, por toda parte.
“Eu acho que se eu puder ir a pé ou de bicicleta, é exercício. E isso está me trazendo saúde.”
Os filhos cresceram ouvindo: “Apaga a luz, economiza água, só põe no prato aquilo que vai comer”, relata consultor de informática Sidnei Schmitt.
“Eles tinham no máximo cinco minutos para tomar banho”, revela Valfredo. “Se passasse de cinco minutos, eu ia lá cobrar. Bati na porta várias vezes cobrando.”
As regras sempre foram muito claras. Na hora de fazer compras... “Só se compra aquilo que realmente necessita. No máximo um sapato por ano. Quando ele aguenta, passa de um ano tranquilamente”, diz o aposentado.
E na hora de pagar... “Meu hábito é ir falar com a gerente, principalmente a dona. A dona é mais prático de a gente convencer, sabe?”, brinca, olhando para a gerente de loja. “É um segredo”, ri ela.
Segredo para conseguir desconto. É o rei da economia. Mesmo com um salário modesto, Valfredo e a mulher deram um empurrãozinho na vida financeira dos filhos.
“Sem dívida e sem mexer na poupança. Fizemos festa de casamento, festa de formatura, compra de casa para a Luciana, boa poupança para o Sidnei, e isso sem mexer no capital, no especial. Só economizando”, diz.
Um esforço que emociona. “Muito orgulho, muita gratidão, sempre”, elogia, emocionada, a assistente de vendas Luciana Schmitt.
No fim das contas, Valfredo conseguiu uma proeza: quitou a casa onde mora hoje e ainda comprou um apartamento na praia. Isso tudo sem nunca ter feito um empréstimo bancário. “Fizemos isso só na força da poupança, guardando dinheiro.”
A fórmula de Valfredo seria a mesma de Rita? Qual o segredo?
“Muito amor ao trabalho, muito amor à vida, muito amor ao capricho, uma luta diária”, conclui Valfredo.
Rita e Valfredo, os nossos dois mestres na arte de economizar, têm mesmo muita coisa em comum. Eles são irmãos, filhos de agricultores, cresceram em uma família grande e aprenderam desde cedo o que fazer, não só em tempos de vacas magras, mas também em época de fartura.
“A nossa mãe sempre dizia: meus filhos, guardem na fartura que vocês têm na necessidade”, diz Valfredo.
A vida na roça foi uma escola. A família Schmitt só via dinheiro uma vez por ano. “Tínhamos que gastar aos poucos. Tinha que sobreviver com aquilo”, lembra Valfredo.
Foi assim que Rita e Valfredo descobriram o caminho para conquistar um belo lugar ao sol. Hoje, Valfredo usa o dinheiro da aposentadoria para se aventurar pelo mundo. Já fez dois cruzeiros e planeja ir ainda mais longe.
“Temos o projeto de ir mais uma vez ano que vem, quem sabe a gente vai fazer um cruzeiro para a Espanha. Estamos projetando para ir para a Espanha ano que vem”, revela.
Rita ainda está se acostumando com esta vida boa. “Eu sempre falava, para todas as minha patroas, que eu ia querer ser dona de casa de manhã e uma madame de tarde. Olha só. Está começando”, ri.

quinta-feira, 8 de março de 2012

The difficulty is not take people out of severe poverty, but is maintaining them out of it


By Fabio de Freitas

How do you find the development of humanity today?


An interesting question to start an interview with… Thanks! As you know I am a student of economics; yet one single science is not enough to understand the complexity of mankind. For this, we need to report ourselves to other forms of knowledge. That's why my library has various books on sociology, mythology, psychology, philosophy, classic literature, and of course economics. I have no intention of becoming an expert in one particular area. This is terrible and annoying because when we do it, it is likely that we want our words to become the only truth. I believe more in the words of Antoine de Saint-Exupery, when he creates in his book, "The Little Prince", a dialogue of a child with a fox to tell us that "we must captivate each other", than in the words of the economist Milton Friedman, who defends prices as a way of bringing people together and making the life easier. Even though there is a bit of truth in his theory, we should be able to decide which one of them is most convenient. We were able to explore the moon, Mars and the secrets of the universe thanks to the prices that provided a complex supply chain to build rockets, telescopes, etc. However, we were and we still are very insensitive when challenged to reduce poverty and hunger and provide the poor with their daily bread, for example. We have numerous theories, technologies and resources available. The question, therefore, is the one of the Cat in "Alice in Wonderland": What is our aim? Where do we want to arrive? What kind of development we want for the future of the humankind? What do we want for our children? It seems to me, and I hope I'm not mistaken, that there already exist manuals on these issues.

What went wrong, was had succeeded, did economic development in Brazil bring results?


The Brazilian economy has been marked by external dependence. Since the colonial times the products extracted in our country, such as sugar and gold, were designed for European markets and it actually still occurs, although in a different way, of course. Our industrial structure was created in the early half of the twentieth century only, based on the coffee industry which in that context assured a part of the investments. Some planning actions of developmental character were than promoted to structure the rising economy. Some of them succeeded, others did not. We went through some good moments during the decades of 50s and 60s, thanks to some coordinated actions that resulted in the implementation of the automobile, chemical and energy industries among others. We suffered severe impacts of the oil crisis of the 70s and 80s, marked by hyperinflation which eroded wages and placed the workers in the slums, and went through a long and terrible experience of military dictatorship. It was only in the 90s that the winds became favorable, with the creation of ‘real plan’ that has curbed inflation and breathe new life into the economy. However, the internal and external debts related to the international crises, limited the progress. From the year of 2000 onward, some significant changes took place: we continued with the floating exchange rate regime adopted in 1999 and intensified the research for achieving the inflation target of 4.5%. Though, the new political leaders who composed the Lula government, elected in 2002, decided to lead the country through new paths and put it on another level. They established policies on social and local development. They created, on the existing but bankrupt bases, the Bolsa Familia conditional cash transfer program, which achieved a remarkable success among the poor. They carried out a new foreign policy toward many different countries, not limiting themselves to the northern axis, the USA. They established programs to generate income with the aim of supporting the sectors of the economy that obtained a greater result of multiplying, as the construction industry, for example, that nowadays employs millions of people. Please observe that Brazil still has a housing deficit of more than 7 million of homes. This is a very serious problem, but it has already been treated by the government as a great economic opportunity. The Lula government has also paid all of the Brazilian debts to the IMF and allocated efforts to give support to the strategic industries such as mining, oil and gas, the only areas where it has retained some involvement after the major privatizations of the previous government. These and other actions gave Lula the greatest popularity as a president in the history of our country. Lula concluded his eight years in office with 86% of popularity in all social strata. This resulted in the transfer of the votes for the first woman president, Dilma Rousseff. However, it is not the end; we still have many other social problems to be faced. Our great challenge is to distribute the income that is still very concentrated. The Bolsa Família program is not enough to resolve this issue.

How is the development of Brazilian state programs of the fight against poverty?


As previously said, there are actions in this direction that have reduced the poverty considerably. The Bolsa Família Program is linked to other programs such as FOME ZERO that provide and promote the basic diet. Each family that receives the Bolsa Familia, the amount ranging between $ 21 and $ 148, also gains a gas voucher, and participates in health programs and free professional training. Of course, it's not just about giving money. In order to benefit from this Program, each family has to guarantee the attendance of their children to school. It is an extremely effective program because it combines different policies to solve a single problem: the extreme poverty. However much still needs to be done. The Bolsa Família Program, which attends 12 million of households, represents only 0.4% of the country's GDP, whereas the interest expense represents 5.6% of GDP. We need to change this logic of investments and increase the government spending in actions that bring tangible benefits to the country. Taking people out of poverty line is easy; the bigger challenge is to keep these people away from poverty. This requires policy of employment and income. Although progress has been achieved, there is no consistent wage policy that ensures a quality of the average income. The salary in Brazil is of 237.18 euros only. We're talking about 45 million people representing 24% of the whole population. The country spends only 4.3% of GDP on health and only 3.9% of GDP on education.

How is the state of Sao Paulo and its socio-economic situation?


The Sao Paulo State can still be considered the economic engine of the country, although it has been changing over the past years since it has become a large service center in Latin America. The industries, before concentrated in Sao Paulo, have searched other states for their factories. However, they maintain their centers of decision in the state. BOVESPA, for example, has absorbed almost all of the Latin American stock exchanges, becoming the second largest stock exchange in the world. São Paulo represents all the bad and the good that exists in our country. In the same place where there are the most beautiful and expensive buildings in the country, there are slums where people have nothing to eat. Another interesting contrast is that this poor part of the population that lives in a precarious housing, with no sanitation, energy and food, often has in their “homes” plasma televisions and mobile phones of the last generation. This is the result of a country that has advanced in some ways but not in others. The concentration of income is a global problem, yet Brazil stands out. Only 10% of Brazil's population, approximately 19 million people, holds 75.4% of all wealth generated in the country. São Paulo city is the biggest example of this phenomenon. 10% of its population, just over one million of people, holds over than 73.4% of the wealth. Therefore don’t look at the skyscrapers and think you are in paradise. Before, you have to lighten the hell that is just below.

What can be done by individuals siting in comfortable chairs in Central Europe to promote human development?


The necessity of promoting the human development is almost always related to the countries that face many social contradictions, such as Brazil. Therefore, a natural human inclination is to say: "It is not my business." In part this is true, if we look at things from an individual perspective. However, the cry of those little human beings who are below the skyscraper is not large enough to reach the skies. And maybe they don’t even want it. What they want is to live decently, educate their children and give them good perspectives for the future. For that they need more voices, they need support. It is where it proceeds what I said earlier, that “we need to captivate the other”. What am I going to choose? Get up and help those who need to walk or simply sit back and say the problem is not mine? I believe that there are people in the world that understand that there is no problem that belongs exclusively to one or another. These people certainly can contribute to the human development of those who need help. I’ll give you an example. Thousands of young talents, served by PROUNI (University Program for all promoted by the federal government), cannot find jobs easily because they lack a second language, especially English. They are formed, but they have profound difficulty in accessing a highly competitive job market. Evidently these young people will get there one day, but they could reach their target earlier if they received some support. Why can’t we use technology and shorten this distance by placing volunteers to teach English to these children and youth. Why European children couldn’t teach their language to the Brazilian ones through a virtual learning platform while making friends around the world and building a global citizenship? This could be done by the Ministries of Foreign Affairs and Education of the various countries with the support of multilateral institutions. These are simple questions that bring profound change in people's lives.

Can you tell us shortly on your experience with your religious studies and works you had done?


I come from a very poor family. I learned how to read and write when I was fourteen. I lived in slums for a long time, going through some sub-human experiences that do not wish to anyone. When I perceived I had conquered some space, I thought I could devote myself entirely to humanitarian causes, helping people who, like me, suffer the consequences of poverty and inequality. So I decided to join those that carry in their soul the social justice, the Jesuits. It was a short but traumatic experience, both in a good and a bad sense. Three long years of discernment in order to be accepted for a one year experience in a house for young candidates. After four months in this house, a Spanish Jesuit crossed my path and decided that I had no vocation for Jesuit. This turned to be the hardest experience of my life: to accept the decision of someone who believed to speak for God on earth. In fact, he took this decision because he believed that someone coming from a poor family, without any education couldn’t have the qualities of a Jesuit. This was not a Jesuit posture. But today I am grateful for him having crossed my path. I learned a lot about the human nature from this experience, especially because I spent the five following years living with the Jesuits to recover from this trauma. Today I keep the same “Ignatian spirit”, but maintain myself distant from the Jesuits from whom I learned so much and to whom I owe much of my training.

Can you tell us shortly about your contact with Poland? How is your intercultural understanding of Polish people and Central Europe?


My first contact with Poland was when I cut my ties with the Jesuits and ‘stole’ one of the nuns. Just kidding! Actually I met my wife, Sylwia, when we worked on one of the Jesuits’ projects. She had come from her experience with the brothers of Taizé in France, for a mission in Brazil as a religious. However, after some time, she decided she did not want to follow her religious life anymore. We were good friends at that time, and we helped each other a lot. She was just about to finish her graduation in education in Brazil, a country in which he fell in love. Therefore, some friends and I decided to give her support until she would be able to decide if she wanted to go back to Poland, her country, or to remain in Brazil. We had a few cafes and some very pleasant conversations at Avenida Paulista. It was there, that happened what Exupéry said "we captivated each other". Well, I went to Poland in 2008 and at the beginning of 2011. Those short trips brought me a strong passion for Eastern Europe.

You had studied in the Jesuit education system. What values have you acquired?


I haven’t had that privilege. The Jesuit Education in Brazil is for the rich. However, it is the most diplomatic way to assume the role of Robin Hood and transfer some wealth to the poor. The Jesuits in Brazil have many high-impact social projects, like FÉ E ALEGRIA project, sponsored by Europeans and the colleges. Therefore, their role in the formation of good leaders is undeniable. I, despite not having the opportunity to receive a Jesuit education, have preserved many of its values. As the founder of the Jesuits, Ignatius Loyola used to affirm "it is not to know much that fills and satisfies, but to enjoy all things internally ". For sure, I’ll keep and try to put into practice all the values I received from the Jesuits. The maximum of the Jesuits is to the search for "MAGIS". This is a purpose that gives meaning to life of any person. Be (human) ever more!

domingo, 26 de fevereiro de 2012

MATEMÁTICO DE HARVARD CRITICA O MODELO DE MICROCRÉDITO COMO MECANISMO DE REDUÇÃO DA POBREZA

ENTREVISTA - 03/02/2012 19h49 - Atualizado em 10/02/2012 11h55
David Roodman: “O microcrédito cria pobres endividados”

O matemático diz que poupança e seguro de vida ajudam mais a reduzir a pobreza do que empréstimos fáceis, que as pessoas não conseguem pagar

DANIELLA CORNACHIONE
SEM DÍVIDAS O matemático David Roodman em seu escritório. Ele acha que dar subsídios ao crédito para os pobres é um jeito ruim de combater a pobreza (Foto: divulgação)O matemático David Roodman em seu escritório. Ele acha que dar subsídios ao crédito para os pobres é um jeito ruim de combater a pobrezaCombater a pobreza nunca foi fácil, e a crise global tornou o desafio ainda mais complicado. O avanço do desemprego, do custo dos alimentos e das barreiras comerciais em diversos países voltou a elevar, recentemente, o número de pobres e miseráveis no mundo – há mais de 900 milhões de pessoas nessas condições. Por isso, é importante concentrar esforços no que realmente funciona, diz o americano David Roodman, matemático formado na Universidade Harvard, há 11 anos dedicado ao tema do combate à pobreza. O que não funciona, na visão dele, é inventar mecanismos de mercado – como o microcrédito – para emprestar dinheiro aos pobres e miseráveis. “O microcrédito não faz jus às promessas de tirar as pessoas da pobreza e dar mais poder às mulheres”, diz Roodman. “As pesquisas encontraram mulheres inadimplentes que perderam panelas, frigideiras, telhados por causa das dívidas.” O matemático, que morou dois anos no Vietnã, descobriu que as famílias mais pobres se beneficiam de verdade com outros serviços de microfinanças criados sob medida para elas, como poupança e seguros. Ele chegou a essas conclusões depois de três anos de pesquisa, análise de dados e muito debate em um respeitado blog (Microfinance open book, o “livro aberto das microfinanças”). As críticas e propostas que emergiram de lá estão no livro Due diligence: an impertinent inquiry into microfinance (em tradução livre, Auditoria: um questionamento impertinente sobre microfinanças, publicado nos Estados Unidos em janeiro, ainda sem previsão de lançamento no Brasil). “O espírito do livro foi tornar transparente o processo de escrita. Dividi tudo com os leitores: rascunhos, dúvidas, descobertas”, afirma. Com o blog e o trabalho na ONG Centro de Desenvolvimento Global, Roodman conquistara o respeito de economistas especialistas no combate à pobreza, como o bengalês Muhammad Yunus, defensor do microcrédito e ganhador do Nobel da Paz de 2006. Yunus apontou Roodman, que agora se tornou seu crítico, como “o mais consistente e articulado analista do microcrédito” surgido nos últimos anos.
ÉPOCA – O que há de errado no combate à pobreza hoje?
David Roodman –
Tenho uma boa e uma má notícia. A má é que a forma mais popular de microfinança, o microcrédito, não faz jus à promessa de tirar as pessoas da pobreza nem dar mais poder às mulheres. É claro que o microcrédito às vezes consegue as duas coisas: se 1 milhão de pessoas têm acesso a microempréstimos, vamos encontrar uma variedade de resultados. Mas, na minha análise cuidadosa das melhores pesquisas, encontrei poucas evidências de que o microcrédito consiga esses efeitos na média. Recentemente, pesquisadores têm acompanhado grupos que receberam e que não receberam empréstimos. Eles descobriram que, depois de 15 a 18 meses, não havia diferenças entre os dois grupos quanto aos indicadores de pobreza, como gastos da família ou número de crianças frequentando a escola. Antropólogos têm encontrado histórias de mulheres no sul da Ásia que se sentiram mais valorizadas pela oportunidade de fazer transações financeiras em reuniões semanais de coleta dos pagamentos. Mas também encontraram histórias de mulheres inadimplentes que perderam telhados, panelas e frigideiras, roubados pelos conhecidos para pagar os empréstimos (na forma mais comum de microcrédito, as famílias pobres atuam como fiadoras umas das outras). Quando um empréstimo cria novas possibilidades para uma pessoa e quando é uma armadilha que a deixa ainda mais pobre? Se entrar em enrascadas por causa do microcrédito é algo corriqueiro, então deve ser uma preocupação de todos. Infelizmente, não temos informações sobre quão comum isso é. Por isso, apoio a busca por formas de oferecer melhores serviços bancários para os pobres, mas devemos ser cuidadosos ao empurrar empréstimos.
ÉPOCA – E qual é a boa notícia?
Roodman –
A boa notícia é que o movimento das microfinanças mostrou a possibilidade de oferecer serviços financeiros – poupança, seguros, transferências de dinheiro – para milhões de pessoas que precisam. Serviços financeiros são como água limpa e eletricidade: essenciais para uma vida confortável. Imagine sua vida sem conta bancária, sem seguro, sem nenhum crédito em lugares como as Casas Bahia. Os pobres precisam de serviços financeiros mais do que os ricos, porque ser pobre significa ter renda pequena e volátil. Você precisa de meios para guardar o dinheiro nos momentos bons e usá-lo em tempos ruins.
ÉPOCA – Como tem sido a reação a suas críticas?
Roodman –
Até agora, tenho apresentado o livro principalmente para quem se interessa pelo assunto. Entre essas pessoas, a maior parte dessas ideias não é surpresa. Nos últimos anos, tem havido muita discussão, dentro do movimento de microfinanças, sobre o que realmente sabemos do impacto que elas causam. Para aqueles menos acostumados com o tema, a reação principal é o desapontamento.
ÉPOCA – E o que você propõe para tornar o combate à pobreza mais eficiente?
Roodman –
Não acho que os filantropos e as agências internacionais devam dar muitos subsídios ao microcrédito – as evidências não mostram que ele realmente mude a vida das pessoas. O crescimento rápido do microcrédito provocou quebras na Nicarágua, na Bósnia, no Marrocos e em regiões do Paquistão e da Índia. Os “investidores sociais” privados estão tentando ajudar, mas eles facilitaram demais os empréstimos. Alguns estão com dívidas até o pescoço. O movimento de microfinanças deveria tirar a ênfase do crédito e concentrá-la na poupança, nos seguros e nas transferências bancárias. É fácil ver como as pessoas podem ter problemas ao pegar muito dinheiro emprestado. Isso não acontece ao poupar demais, contanto que a poupança esteja segura. Instituições maduras de microfinanças como o BancoSol, na Bolívia, ou o Grameen Bank, em Bangladesh, agora fazem mais contas de poupança do que dão crédito. Na Bolívia, um dos primeiros lugares em que as microfinanças decolaram, as instituições agora têm mais de 2 milhões de contas poupanças – num país com 10 milhões de pessoas. Seguro de vida também é outro tipo de serviço simples, que pode ser muito valioso. Foi o primeiro tipo de seguro formal a ser vendido em larga escala na Inglaterra, quando o país se industrializou.
Investidores sociais tentam ajudar, mas facilitam demais o crédito. Algumas pessoas têm dívidas até o pescoço, com três, cinco, sete empréstimos "
ÉPOCA – A tecnologia pode também desempenhar um papel?
Roodman –
Tecnologias como transferências bancárias por celular e leitores de cartões geram inúmeras novas possibilidades para cortar custos e diversificar a oferta de serviços às pessoas pobres. No Quênia, o sistema M-Pesa, de transferência de dinheiro pelo celular, tem 14 milhões de usuários e faz mais transações que a Western Union (multinacional americana de 150 anos, especialista em transferências).
ÉPOCA – E no Brasil, há algo a destacar?
Roodman –
O Brasil é um modelo também por causa de seus correspondentes bancários. Eles levam acesso a serviços de bancos às pessoas em lugares afastados. Lojistas permitem que você deposite e retire o dinheiro por meio de equipamentos colocados dentro do estabelecimento. Esses são todos exemplos de fornecimento de serviços financeiros aos pobres em escala muito grande – e eles não criam para os clientes os mesmos riscos que os empréstimos.
ÉPOCA – Você acha que o economista Muhammad Yunus, ganhador do Prêmio Nobel da Paz, está errado?
Roodman –
Bem, Muhammad Yunus disse muitas coisas. Discordo de algumas. Ele estava errado ao intuir que exemplos bem-sucedidos de microcrédito contam a história toda. Também discordo que o microcrédito que busca lucro seja automaticamente considerado agiotagem, como diz Yunus. Para mim, ele é como Henry Ford. Yunus não inventou o microcrédito, mas foi o primeiro a massificá-lo.
ÉPOCA – Por que o microcrédito se difundiu mais em outros países, como a Índia, do que no Brasil?
Roodman –
Alguns fatores explicam isso. O primeiro é o sucesso de emprestadores como as Casas Bahia, que são uma alternativa ao crédito direto no banco. Os brasileiros parecem mais confortáveis em (fazer a compra e) dizer “eu pago depois” do que em pegar empréstimo para pagar a compra à vista. Dizer “eu pago depois” parece um peso menor do que pegar dinheiro emprestado. Acredito que os bancos públicos do Brasil também têm resistido em permitir a competição entre instituições de microfinanças do setor privado.
ÉPOCA – A Índia é um caso de sucesso no uso de microfinanças?
Roodman –
Infelizmente, não. Um exemplo: o Estado onde as microfinanças ficaram mais famosas foi Andhra Pradesh. Quinze meses atrás, o governo estadual decidiu desativá-las por causa de notícias de suicídios de mulheres inadimplentes. O problema do suicídio foi exagerado, e o governo reagiu com excesso, destruindo o microcrédito no Estado. Mas também me pareceu, quando visitei algumas aldeias por lá, em 2010, que ficara fácil demais pegar empréstimos. Algumas pessoas tomavam três, cinco, até sete empréstimos, que só eram pagos com muita dificuldade.
ÉPOCA – Os programas de combate à pobreza no Brasil também são motivo de debate. Os críticos dizem que os beneficiados ficam acomodados e preguiçosos.
Roodman –
Não sei muito sobre esses programas, mas eles são famosos. No geral, acho uma boa ideia dar dinheiro diretamente aos pobres, especialmente numa sociedade desigual como o Brasil. Talvez nos EUA precisássemos mais do que isso. Suponho que os críticos desses programas sejam bem mais ricos do que quem recebe o benefício. Será que não são  preguiçosos?

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Desigual, Brasil assiste a crescimento de mercado de luxo

Paulo Cabral

Da BBC em São Paulo
Atualizado em  2 de fevereiro, 2012 - 09:04 (Brasília) 11:04 GMT

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Uma década atrás, parte da elite brasileira estava tensa e insegura em relação ao futuro com a chegada do ex-operário Luiz Inácio Lula da Silva ao poder. Mas no fim das contas, os ricos ficaram mais ricos.
Foto: Cortesia da TV Bandeirantes
"Quando (o ex-presidente) Lula chegou ao poder, toda a classe alta brasileira ficou muito preocupada. Nós achávamos que ia ser terrível", diz a arquiteta Brunete Fraccaroli, uma das cinco milionárias do reality show Mulheres Ricas, da TV Bandeirantes, que mostra todas as semanas como é a vida dos super ricos, num dos países mais desiguais do mundo.
"Mas o presidente Lula fez um ótimo governo. Os ricos continuaram ricos e os pobres também têm um pouco mais de dinheiro", completa a milionária, que já nasceu rica e adicionou alguns milhões à fortuna da família com seu trabalho como arquiteta e designer de interiores.
Junto com o bom momento econômico também se desenvolve no Brasil o setor de produtos e serviços para atender às necessidades e aos desejos da alta classe.
Uma das faces mais visíveis desse setor está nos céus de São Paulo: a cidade já tem mais de 400 helicópteros privados registrados para atender aos endinheirados que queiram fugir do risco de assaltos e da certeza de congestionamentos.
Reality show da TV brasileira mostra vida de mulheres milionárias em São Paulo
"Nosso negócio vem crescendo a uma média de 10% a 15% ao ano", diz o dono da empresa de táxi aéreo Helimarte, Jorge Bitar.
O empresário explica que novos clientes estão chegando ao setor enquanto os antigos estão voando cada vez mais.
"Estamos até perdendo clientes que começam a voar muito decidem comprar o próprio helicóptero. E pior que alguns ainda acabam levando nossos pilotos, que são profissionais em falta no mercado."

Vista aérea

Uma hora de vôo em São Paulo num helicóptero para três pessoas (além o piloto) custa cerca de R$ 1600, cerca de duas vezes e meia o salário mínimo no Brasil.
É um dos indícios – assim como vista aérea as enormes favelas vizinhas de condomínios de luxo no bairro paulistano do Morumbi - da desigualdade social que ainda é uma das marcas do país, mesmo com a recente melhora nas condições de vida das populações mais pobres.
Nos últimos dez anos, a renda dos 10% mais ricos do Brasil cresceu 20% e 60% num período de 20 anos. Os 10% mais pobres avançaram mais 100% na última década e 160% em vinte anos.
O economista da Universidade de São Paulo (USP) e do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper) Naércio Menezes diz que os números deixam claro que houve uma redução de desigualdade de renda no país que conseguiu ser ao mesmo tempo recorde e insuficiente.
"O problema é que o Brasil saiu de uma situação tão ruim, de desigualdade tão grande, que mesmo as mudanças significativas dos últimos anos mal tocam a superfície do problema", explica Menezes.
Vista aérea de São Paulo. Foto: BBC
Apesar do crescimento econômico, Brasil ainda é um dos países mais desiguais do mundo
"O Brasil ainda é um dos países mais desiguais do mundo e a mobilidade social é quase inexistente. Para quem nasce pobre é praticamente impossível ficar rico."

Crescimento insuficiente

Um estudo recente da ONG britânica Oxfam revelou que o Brasil segundo país mais socialmente desigual do G20 (grupo das 20 maiores economia do mundo), à frente apenas da África do Sul.
"Devemos elogiar a evolução significativa do Brasil no combate à desigualdade nos últimos dez anos, mas é também importante deixar claro que o país ainda está muito longe da situação ideal", diz o diretor do escritório da Oxfam no Brasil, Simon Ticehurst.
O especialista observa que apenas crescimento econômico não é suficiente para reduzir a pobreza e a desigualdade.
"São essenciais medidas específicas de distribuição da renda. Na África do Sul, por exemplo, a economia está crescendo mas a pobreza está aumentando."
Naércio Menzes diz que a melhora no padrão de vida dos mais pobres também tem um impacto direto e positivo sobre a vida dos ricos.
"Quando os níveis de educação e renda dos pobres melhoram, o benefício se reverte para toda a sociedade através, por exemplo, de aumento na produtividade, queda na criminalidade e desenvolvimento de consciência política e ecológica."

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Transferência de renda tem que ser acompanhada por geração de empregos, diz analista

Paula Adamo Idoeta

Atualizado em  16 de fevereiro, 2012 - 06:31 (Brasília) 08:31 GMT
Foto de arquivo de favela brasileira (BBC)
Para especialista britânica, pobreza vai além de questões de renda
Programas de transferência de renda tiveram um papel crucial na redução da pobreza no Brasil, mas seu efeito é limitado quando não são acompanhados de geração de empregos e de ações em outras frentes, opina Claire Melamed, chefe do projeto de crescimento e igualdade do centro acadêmico britânico Overseas Development Institute (ODI), focado em desenvolvimento e questões humanitárias.
Segundo dados do Censo 2010 do IBGE, 8,5% da população brasileira ainda vive em situação de pobreza extrema, com renda domiciliar per capita de até R$ 70.
Para Melamed, é preciso incentivar a iniciativa privada e o crédito às pequenas empresas - algo que ela considera mais eficiente do que o microcrédito aos indivíduos mais pobres.
Veja a seguir trechos de sua entrevista à BBC Brasil.
BBC Brasil - Apesar de um crescimento econômico significativo com distribuição de renda, o Brasil continua tendo bolsões de pobreza extrema. Por que é tão difícil erradicá-los?
Claire Melamed – A questão da pobreza extrema é que os pobres não são pobres por falta de dinheiro. A falta de dinheiro na verdade é um sintoma de uma série de outras privações econômicas e sociais. Essas barreiras fazem com que seja muito difícil para alguns grupos participar e se beneficiar do crescimento econômico.
BBC Brasil - É um problema que vai além da renda?
Claire Melamed – Certamente. Brasil tem motivos para ter orgulho de sua redução da pobreza e de seus programas de transferência de renda. Mas eles por si só não resolvem a pobreza. A renda é apenas uma parte. Um grande aspecto é a propriedade de terra, a distribuição de terra – algo que permanece desigual no Brasil.
Educação também é chave, e sua (melhoria) deve ir além do nível primário, já que o tipo de emprego sendo gerado hoje no mundo exige alto nível de conhecimento. Além disso, não tem sentido prover educação se não houver empregos no final da cadeia. E há limites para o que o governo pode fazer nessa área – talvez incentivar a iniciativa privada, fornecer crédito, melhorar o ambiente (de negócios).
"O foco(do Brasil) tem sido a transferência de renda, algo extremamente bem-sucedido, mas talvez estejamos vendo os limites dessa estratégia. Algumas pessoas podem ter tido aumento de renda, mas (não estão tendo acesso) a trabalho e serviços"
Claire Melamed, do 'think tank' britânico ODI
BBC Brasil - Apesar de a pobreza ir além da renda, ainda contabilizamos os mais pobres por critérios de renda. Como melhorar essa contagem?
Claire Melamed – É uma briga entre querer prover dados simples e diretos que possam ser usados por autores de políticas públicas e que reflitam a realidade - ainda que de forma imperfeita -, e o desejo de tentar entender o que realmente está acontecendo na vida das pessoas (estudadas), o que é muito mais complexo.
Minha opinião é que os dados de renda têm um papel relativamente correto na descrição da pobreza, ao dar uma noção de quem é pobre ou não. Mas esses dados não explicam a pobreza ou como escapar dela.
BBC Brasil -O programa Brasil sem Miséria, do governo federal, é baseado em três pilares: transferência de renda, ampliação da oferta de serviços públicos e integração dos pobres ao mercado de trabalho. Acha que é a abordagem correta? Como fazê-la funcionar na prática?
Claire Melamed – É uma abordagem sensata, e apenas acrescentaria a ela o incentivo à participação política dos cidadãos. O difícil é como alocar recursos. Poucos governos têm o dinheiro suficiente para atacar esses três pilares.
O foco tem sido a transferência de renda, algo extremamente bem-sucedido, mas talvez estejamos assistindo aos limites dessa estratégia. Algumas pessoas podem ter tido aumento de renda, mas (não estão tendo acesso) a trabalho e serviços.
"Existe uma espécie de suposição de que as pessoas pobres são empreendedoras natas e que tudo o que precisam é de crédito para criar negócios bem-sucedidos. Não sei você, mas eu e muitas pessoas que conheço fizemos a escolha de trabalhar para alguém, em um ambiente muito mais estável e seguro, em vez de ter nossa própria empresa. Por que seria diferente com os mais pobres?"
Ao mesmo tempo, às vezes somos um pouco impacientes. Claro que devemos agir o mais rapidamente possível para tirar as pessoas da pobreza, mas alguns países europeus, por exemplo, levaram centenas de anos para obter um alto padrão de vida e sistemas eficientes de saúde e educação.
BBC Brasil - No Brasil, a geração de emprego foi considerada essencial para reduzir a pobreza. Mas, com a redução do ritmo de crescimento, isso deve desacelerar. É algo preocupante?
Claire Melamed – Sim, é preocupante, e não só no Brasil. Em muitos lugares, em especial na África, vemos o fenômeno do crescimento sem trabalho – países como a Nigéria, que crescem rapidamente, mas geram poucos empregos. Isso ocorre por vários fatores, sendo um deles o fato de o crescimento ser baseado na produção de commodities, que geram muito dinheiro, mas não empregam tanta gente.
No fim das contas, sem empregos, qualquer estratégia contra a pobreza extrema – como transferência de renda, serviços públicos etc – será uma batalha perdida. É um trabalho estável que dá às pessoas renda fixa e confiança no futuro.
BBC Brasil - Em um artigo, a senhora também diz que o microcrédito não basta.
Claire Melamed – Existe uma espécie de suposição de que as pessoas pobres são empreendedoras natas e que tudo o que precisam é de crédito para criar negócios bem-sucedidos. Não sei você, mas eu e muitas pessoas que conheço fizemos a escolha de trabalhar para alguém, em um ambiente muito mais estável e seguro, em vez de ter nossa própria empresa. Por que seria diferente com os mais pobres?
Ao mesmo tempo, precisamos fazer uma distinção entre o microcrédito concedido a uma pessoa e o crédito dado a pequenas empresas, que podem empregar cinco ou dez pessoas e se sair muito bem. Essas empresas são a espinha dorsal de muitos países e, juntas, empregam grandes parcelas da população.
Favela na Nigéria, em foto de arquivo (BBC)
Nigéria é um dos países com 'crescimento sem empregos', diz Claire Melamed
Sendo assim, eu não focaria tanto em emprestar dinheiro para cada pessoa pobre – mas sim em pequenas e médias empresas e como facilitar a vida de quem tem uma boa ideia e quer abrir um pequeno negócio.
BBC Brasil - Em um dos seus artigos, você diz que é importante perguntar aos mais pobres o que eles querem.
Claire Melamed – Infelizmente, poucos governos e doadores têm feito essa pergunta. Por exemplo, algo desejado por pessoas pobres de diversos países é (a criação de) empregos estáveis. Mas países doadores prestam pouca atenção à questão do desemprego. Outro anseio é por uma melhor comunicação com o mundo: melhores estradas, melhor sistema de telefonia, menos isolamento.
Além disso, muitas vezes nossa tendência é associar (o combate à) pobreza à agricultura, porque os mais pobres costumam se concentrar em áreas rurais.
De certa forma, temos que nos concentrar em onde as pessoas estão. Mas também temos que pensar no futuro e nas mudanças em curso no mundo. Talvez uma pessoa pobre na área rural acredite que a solução para sua pobreza esteja em se mudar para a cidade e conseguir um emprego na indústria ou no setor de serviços.
BBC Brasil - Como lidar com isso? Investindo mais nas cidades?
Claire Melamed – Não existe uma solução única - depende de cada país, de o quanto ele tiver para investir. Mas uma questão-chave é gerar empregos.
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