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domingo, 26 de fevereiro de 2012

MATEMÁTICO DE HARVARD CRITICA O MODELO DE MICROCRÉDITO COMO MECANISMO DE REDUÇÃO DA POBREZA

ENTREVISTA - 03/02/2012 19h49 - Atualizado em 10/02/2012 11h55
David Roodman: “O microcrédito cria pobres endividados”

O matemático diz que poupança e seguro de vida ajudam mais a reduzir a pobreza do que empréstimos fáceis, que as pessoas não conseguem pagar

DANIELLA CORNACHIONE
SEM DÍVIDAS O matemático David Roodman em seu escritório. Ele acha que dar subsídios ao crédito para os pobres é um jeito ruim de combater a pobreza (Foto: divulgação)O matemático David Roodman em seu escritório. Ele acha que dar subsídios ao crédito para os pobres é um jeito ruim de combater a pobrezaCombater a pobreza nunca foi fácil, e a crise global tornou o desafio ainda mais complicado. O avanço do desemprego, do custo dos alimentos e das barreiras comerciais em diversos países voltou a elevar, recentemente, o número de pobres e miseráveis no mundo – há mais de 900 milhões de pessoas nessas condições. Por isso, é importante concentrar esforços no que realmente funciona, diz o americano David Roodman, matemático formado na Universidade Harvard, há 11 anos dedicado ao tema do combate à pobreza. O que não funciona, na visão dele, é inventar mecanismos de mercado – como o microcrédito – para emprestar dinheiro aos pobres e miseráveis. “O microcrédito não faz jus às promessas de tirar as pessoas da pobreza e dar mais poder às mulheres”, diz Roodman. “As pesquisas encontraram mulheres inadimplentes que perderam panelas, frigideiras, telhados por causa das dívidas.” O matemático, que morou dois anos no Vietnã, descobriu que as famílias mais pobres se beneficiam de verdade com outros serviços de microfinanças criados sob medida para elas, como poupança e seguros. Ele chegou a essas conclusões depois de três anos de pesquisa, análise de dados e muito debate em um respeitado blog (Microfinance open book, o “livro aberto das microfinanças”). As críticas e propostas que emergiram de lá estão no livro Due diligence: an impertinent inquiry into microfinance (em tradução livre, Auditoria: um questionamento impertinente sobre microfinanças, publicado nos Estados Unidos em janeiro, ainda sem previsão de lançamento no Brasil). “O espírito do livro foi tornar transparente o processo de escrita. Dividi tudo com os leitores: rascunhos, dúvidas, descobertas”, afirma. Com o blog e o trabalho na ONG Centro de Desenvolvimento Global, Roodman conquistara o respeito de economistas especialistas no combate à pobreza, como o bengalês Muhammad Yunus, defensor do microcrédito e ganhador do Nobel da Paz de 2006. Yunus apontou Roodman, que agora se tornou seu crítico, como “o mais consistente e articulado analista do microcrédito” surgido nos últimos anos.
ÉPOCA – O que há de errado no combate à pobreza hoje?
David Roodman –
Tenho uma boa e uma má notícia. A má é que a forma mais popular de microfinança, o microcrédito, não faz jus à promessa de tirar as pessoas da pobreza nem dar mais poder às mulheres. É claro que o microcrédito às vezes consegue as duas coisas: se 1 milhão de pessoas têm acesso a microempréstimos, vamos encontrar uma variedade de resultados. Mas, na minha análise cuidadosa das melhores pesquisas, encontrei poucas evidências de que o microcrédito consiga esses efeitos na média. Recentemente, pesquisadores têm acompanhado grupos que receberam e que não receberam empréstimos. Eles descobriram que, depois de 15 a 18 meses, não havia diferenças entre os dois grupos quanto aos indicadores de pobreza, como gastos da família ou número de crianças frequentando a escola. Antropólogos têm encontrado histórias de mulheres no sul da Ásia que se sentiram mais valorizadas pela oportunidade de fazer transações financeiras em reuniões semanais de coleta dos pagamentos. Mas também encontraram histórias de mulheres inadimplentes que perderam telhados, panelas e frigideiras, roubados pelos conhecidos para pagar os empréstimos (na forma mais comum de microcrédito, as famílias pobres atuam como fiadoras umas das outras). Quando um empréstimo cria novas possibilidades para uma pessoa e quando é uma armadilha que a deixa ainda mais pobre? Se entrar em enrascadas por causa do microcrédito é algo corriqueiro, então deve ser uma preocupação de todos. Infelizmente, não temos informações sobre quão comum isso é. Por isso, apoio a busca por formas de oferecer melhores serviços bancários para os pobres, mas devemos ser cuidadosos ao empurrar empréstimos.
ÉPOCA – E qual é a boa notícia?
Roodman –
A boa notícia é que o movimento das microfinanças mostrou a possibilidade de oferecer serviços financeiros – poupança, seguros, transferências de dinheiro – para milhões de pessoas que precisam. Serviços financeiros são como água limpa e eletricidade: essenciais para uma vida confortável. Imagine sua vida sem conta bancária, sem seguro, sem nenhum crédito em lugares como as Casas Bahia. Os pobres precisam de serviços financeiros mais do que os ricos, porque ser pobre significa ter renda pequena e volátil. Você precisa de meios para guardar o dinheiro nos momentos bons e usá-lo em tempos ruins.
ÉPOCA – Como tem sido a reação a suas críticas?
Roodman –
Até agora, tenho apresentado o livro principalmente para quem se interessa pelo assunto. Entre essas pessoas, a maior parte dessas ideias não é surpresa. Nos últimos anos, tem havido muita discussão, dentro do movimento de microfinanças, sobre o que realmente sabemos do impacto que elas causam. Para aqueles menos acostumados com o tema, a reação principal é o desapontamento.
ÉPOCA – E o que você propõe para tornar o combate à pobreza mais eficiente?
Roodman –
Não acho que os filantropos e as agências internacionais devam dar muitos subsídios ao microcrédito – as evidências não mostram que ele realmente mude a vida das pessoas. O crescimento rápido do microcrédito provocou quebras na Nicarágua, na Bósnia, no Marrocos e em regiões do Paquistão e da Índia. Os “investidores sociais” privados estão tentando ajudar, mas eles facilitaram demais os empréstimos. Alguns estão com dívidas até o pescoço. O movimento de microfinanças deveria tirar a ênfase do crédito e concentrá-la na poupança, nos seguros e nas transferências bancárias. É fácil ver como as pessoas podem ter problemas ao pegar muito dinheiro emprestado. Isso não acontece ao poupar demais, contanto que a poupança esteja segura. Instituições maduras de microfinanças como o BancoSol, na Bolívia, ou o Grameen Bank, em Bangladesh, agora fazem mais contas de poupança do que dão crédito. Na Bolívia, um dos primeiros lugares em que as microfinanças decolaram, as instituições agora têm mais de 2 milhões de contas poupanças – num país com 10 milhões de pessoas. Seguro de vida também é outro tipo de serviço simples, que pode ser muito valioso. Foi o primeiro tipo de seguro formal a ser vendido em larga escala na Inglaterra, quando o país se industrializou.
Investidores sociais tentam ajudar, mas facilitam demais o crédito. Algumas pessoas têm dívidas até o pescoço, com três, cinco, sete empréstimos "
ÉPOCA – A tecnologia pode também desempenhar um papel?
Roodman –
Tecnologias como transferências bancárias por celular e leitores de cartões geram inúmeras novas possibilidades para cortar custos e diversificar a oferta de serviços às pessoas pobres. No Quênia, o sistema M-Pesa, de transferência de dinheiro pelo celular, tem 14 milhões de usuários e faz mais transações que a Western Union (multinacional americana de 150 anos, especialista em transferências).
ÉPOCA – E no Brasil, há algo a destacar?
Roodman –
O Brasil é um modelo também por causa de seus correspondentes bancários. Eles levam acesso a serviços de bancos às pessoas em lugares afastados. Lojistas permitem que você deposite e retire o dinheiro por meio de equipamentos colocados dentro do estabelecimento. Esses são todos exemplos de fornecimento de serviços financeiros aos pobres em escala muito grande – e eles não criam para os clientes os mesmos riscos que os empréstimos.
ÉPOCA – Você acha que o economista Muhammad Yunus, ganhador do Prêmio Nobel da Paz, está errado?
Roodman –
Bem, Muhammad Yunus disse muitas coisas. Discordo de algumas. Ele estava errado ao intuir que exemplos bem-sucedidos de microcrédito contam a história toda. Também discordo que o microcrédito que busca lucro seja automaticamente considerado agiotagem, como diz Yunus. Para mim, ele é como Henry Ford. Yunus não inventou o microcrédito, mas foi o primeiro a massificá-lo.
ÉPOCA – Por que o microcrédito se difundiu mais em outros países, como a Índia, do que no Brasil?
Roodman –
Alguns fatores explicam isso. O primeiro é o sucesso de emprestadores como as Casas Bahia, que são uma alternativa ao crédito direto no banco. Os brasileiros parecem mais confortáveis em (fazer a compra e) dizer “eu pago depois” do que em pegar empréstimo para pagar a compra à vista. Dizer “eu pago depois” parece um peso menor do que pegar dinheiro emprestado. Acredito que os bancos públicos do Brasil também têm resistido em permitir a competição entre instituições de microfinanças do setor privado.
ÉPOCA – A Índia é um caso de sucesso no uso de microfinanças?
Roodman –
Infelizmente, não. Um exemplo: o Estado onde as microfinanças ficaram mais famosas foi Andhra Pradesh. Quinze meses atrás, o governo estadual decidiu desativá-las por causa de notícias de suicídios de mulheres inadimplentes. O problema do suicídio foi exagerado, e o governo reagiu com excesso, destruindo o microcrédito no Estado. Mas também me pareceu, quando visitei algumas aldeias por lá, em 2010, que ficara fácil demais pegar empréstimos. Algumas pessoas tomavam três, cinco, até sete empréstimos, que só eram pagos com muita dificuldade.
ÉPOCA – Os programas de combate à pobreza no Brasil também são motivo de debate. Os críticos dizem que os beneficiados ficam acomodados e preguiçosos.
Roodman –
Não sei muito sobre esses programas, mas eles são famosos. No geral, acho uma boa ideia dar dinheiro diretamente aos pobres, especialmente numa sociedade desigual como o Brasil. Talvez nos EUA precisássemos mais do que isso. Suponho que os críticos desses programas sejam bem mais ricos do que quem recebe o benefício. Será que não são  preguiçosos?

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Transferência de renda tem que ser acompanhada por geração de empregos, diz analista

Paula Adamo Idoeta

Atualizado em  16 de fevereiro, 2012 - 06:31 (Brasília) 08:31 GMT
Foto de arquivo de favela brasileira (BBC)
Para especialista britânica, pobreza vai além de questões de renda
Programas de transferência de renda tiveram um papel crucial na redução da pobreza no Brasil, mas seu efeito é limitado quando não são acompanhados de geração de empregos e de ações em outras frentes, opina Claire Melamed, chefe do projeto de crescimento e igualdade do centro acadêmico britânico Overseas Development Institute (ODI), focado em desenvolvimento e questões humanitárias.
Segundo dados do Censo 2010 do IBGE, 8,5% da população brasileira ainda vive em situação de pobreza extrema, com renda domiciliar per capita de até R$ 70.
Para Melamed, é preciso incentivar a iniciativa privada e o crédito às pequenas empresas - algo que ela considera mais eficiente do que o microcrédito aos indivíduos mais pobres.
Veja a seguir trechos de sua entrevista à BBC Brasil.
BBC Brasil - Apesar de um crescimento econômico significativo com distribuição de renda, o Brasil continua tendo bolsões de pobreza extrema. Por que é tão difícil erradicá-los?
Claire Melamed – A questão da pobreza extrema é que os pobres não são pobres por falta de dinheiro. A falta de dinheiro na verdade é um sintoma de uma série de outras privações econômicas e sociais. Essas barreiras fazem com que seja muito difícil para alguns grupos participar e se beneficiar do crescimento econômico.
BBC Brasil - É um problema que vai além da renda?
Claire Melamed – Certamente. Brasil tem motivos para ter orgulho de sua redução da pobreza e de seus programas de transferência de renda. Mas eles por si só não resolvem a pobreza. A renda é apenas uma parte. Um grande aspecto é a propriedade de terra, a distribuição de terra – algo que permanece desigual no Brasil.
Educação também é chave, e sua (melhoria) deve ir além do nível primário, já que o tipo de emprego sendo gerado hoje no mundo exige alto nível de conhecimento. Além disso, não tem sentido prover educação se não houver empregos no final da cadeia. E há limites para o que o governo pode fazer nessa área – talvez incentivar a iniciativa privada, fornecer crédito, melhorar o ambiente (de negócios).
"O foco(do Brasil) tem sido a transferência de renda, algo extremamente bem-sucedido, mas talvez estejamos vendo os limites dessa estratégia. Algumas pessoas podem ter tido aumento de renda, mas (não estão tendo acesso) a trabalho e serviços"
Claire Melamed, do 'think tank' britânico ODI
BBC Brasil - Apesar de a pobreza ir além da renda, ainda contabilizamos os mais pobres por critérios de renda. Como melhorar essa contagem?
Claire Melamed – É uma briga entre querer prover dados simples e diretos que possam ser usados por autores de políticas públicas e que reflitam a realidade - ainda que de forma imperfeita -, e o desejo de tentar entender o que realmente está acontecendo na vida das pessoas (estudadas), o que é muito mais complexo.
Minha opinião é que os dados de renda têm um papel relativamente correto na descrição da pobreza, ao dar uma noção de quem é pobre ou não. Mas esses dados não explicam a pobreza ou como escapar dela.
BBC Brasil -O programa Brasil sem Miséria, do governo federal, é baseado em três pilares: transferência de renda, ampliação da oferta de serviços públicos e integração dos pobres ao mercado de trabalho. Acha que é a abordagem correta? Como fazê-la funcionar na prática?
Claire Melamed – É uma abordagem sensata, e apenas acrescentaria a ela o incentivo à participação política dos cidadãos. O difícil é como alocar recursos. Poucos governos têm o dinheiro suficiente para atacar esses três pilares.
O foco tem sido a transferência de renda, algo extremamente bem-sucedido, mas talvez estejamos assistindo aos limites dessa estratégia. Algumas pessoas podem ter tido aumento de renda, mas (não estão tendo acesso) a trabalho e serviços.
"Existe uma espécie de suposição de que as pessoas pobres são empreendedoras natas e que tudo o que precisam é de crédito para criar negócios bem-sucedidos. Não sei você, mas eu e muitas pessoas que conheço fizemos a escolha de trabalhar para alguém, em um ambiente muito mais estável e seguro, em vez de ter nossa própria empresa. Por que seria diferente com os mais pobres?"
Ao mesmo tempo, às vezes somos um pouco impacientes. Claro que devemos agir o mais rapidamente possível para tirar as pessoas da pobreza, mas alguns países europeus, por exemplo, levaram centenas de anos para obter um alto padrão de vida e sistemas eficientes de saúde e educação.
BBC Brasil - No Brasil, a geração de emprego foi considerada essencial para reduzir a pobreza. Mas, com a redução do ritmo de crescimento, isso deve desacelerar. É algo preocupante?
Claire Melamed – Sim, é preocupante, e não só no Brasil. Em muitos lugares, em especial na África, vemos o fenômeno do crescimento sem trabalho – países como a Nigéria, que crescem rapidamente, mas geram poucos empregos. Isso ocorre por vários fatores, sendo um deles o fato de o crescimento ser baseado na produção de commodities, que geram muito dinheiro, mas não empregam tanta gente.
No fim das contas, sem empregos, qualquer estratégia contra a pobreza extrema – como transferência de renda, serviços públicos etc – será uma batalha perdida. É um trabalho estável que dá às pessoas renda fixa e confiança no futuro.
BBC Brasil - Em um artigo, a senhora também diz que o microcrédito não basta.
Claire Melamed – Existe uma espécie de suposição de que as pessoas pobres são empreendedoras natas e que tudo o que precisam é de crédito para criar negócios bem-sucedidos. Não sei você, mas eu e muitas pessoas que conheço fizemos a escolha de trabalhar para alguém, em um ambiente muito mais estável e seguro, em vez de ter nossa própria empresa. Por que seria diferente com os mais pobres?
Ao mesmo tempo, precisamos fazer uma distinção entre o microcrédito concedido a uma pessoa e o crédito dado a pequenas empresas, que podem empregar cinco ou dez pessoas e se sair muito bem. Essas empresas são a espinha dorsal de muitos países e, juntas, empregam grandes parcelas da população.
Favela na Nigéria, em foto de arquivo (BBC)
Nigéria é um dos países com 'crescimento sem empregos', diz Claire Melamed
Sendo assim, eu não focaria tanto em emprestar dinheiro para cada pessoa pobre – mas sim em pequenas e médias empresas e como facilitar a vida de quem tem uma boa ideia e quer abrir um pequeno negócio.
BBC Brasil - Em um dos seus artigos, você diz que é importante perguntar aos mais pobres o que eles querem.
Claire Melamed – Infelizmente, poucos governos e doadores têm feito essa pergunta. Por exemplo, algo desejado por pessoas pobres de diversos países é (a criação de) empregos estáveis. Mas países doadores prestam pouca atenção à questão do desemprego. Outro anseio é por uma melhor comunicação com o mundo: melhores estradas, melhor sistema de telefonia, menos isolamento.
Além disso, muitas vezes nossa tendência é associar (o combate à) pobreza à agricultura, porque os mais pobres costumam se concentrar em áreas rurais.
De certa forma, temos que nos concentrar em onde as pessoas estão. Mas também temos que pensar no futuro e nas mudanças em curso no mundo. Talvez uma pessoa pobre na área rural acredite que a solução para sua pobreza esteja em se mudar para a cidade e conseguir um emprego na indústria ou no setor de serviços.
BBC Brasil - Como lidar com isso? Investindo mais nas cidades?
Claire Melamed – Não existe uma solução única - depende de cada país, de o quanto ele tiver para investir. Mas uma questão-chave é gerar empregos.
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quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Mundo das Microfinanças: Uma série de entrevistas com quem entende do assunto.

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Esta semana, Gente microfinanças, está dando início à publicação de uma série de entrevistas realizadas com agentes importantes no Mundo das Microfinanças, tanto do Brasil quanto de outras nações. O objetivo é unir, num mesmo espaço, as diferentes visões sobre um mesmo aspecto e compartilhá-las, a fim de enriquecer o diálogo entre os diferentes segmentos, instituições e públicos interessados. Neste sentido, damos início com a entrevista feita ao Senhor Tomáš Hes, Executivo da Microfinance a.s e sócio fundador do Projeto Myelen.com, com sede na República Tcheca e com operações no México, Uruguai e, em breve, no Brasil.

Gentes: _Como você avalia o grau de importância do microcrédito no contexto atual e como ele pode contribuir para o desenvolvimento do ser humano?

Tomás: _Microcrédito é simplesmente uma ferramenta do preenchimento do espaço vazio na economia, dominada pelos dogmas bancários. Tem limites em solucionar assuntos importantes, não é uma panaceia, porém cria espaços para que as pessoas tenham mais possibilidades. Mas tem algo transcendental, já que rompe dogmas milenares e permite que inventemos mais estruturas inovadoras ligadas ao microcrédito. Isso tem qualidades de um milagre, digamos.

Gentes: _Por que razão acreditar nisto?

Tomás: _Tenho visto muitos casos de desenvolvimento pessoal da clientela do microcrédito, sobretudo fortalecimento da autoestima daquelas pessoas marginalizadas. Isso é indiscutível. Quem quer e obtém uma oportunidade, faz disso progresso para si mesmo, e assim, para todos.

Gentes: _Qual seu projeto e por que o julga relevante para o desenvolvimento das microfinanças e do microcrédito?

Tomás: _ O nosso projeto permite ligar pessoas das classes médias ao setor de finanças das classes menos abastardas. Diretamente de suas casas, graças à internet. Reforça, portanto, o nosso poder de comunicação entre seres humanos em outros países, em outras classes sócias. O microcrédito vem como uma arma de aceitação e de conscientização de qual a nossa corresponsabilidade com o destino do planeta, atualmente comprometido pelas crises, causadas precisamente por processos decisórios irresponsáveis e intangíveis de distribuição de riqueza, e que ocorre no setor das finanças corporativas, trazendo danos para todos.

Gentes: _Qual a importância da tecnologia na gestão de microfinanças hoje e qual a sua contribuição para redução da pobreza num contexto global?

Tomás: _Creio que a nossa contribuição mais importante é precisamente romper os paradigmas e permitir que pessoas se desenvolvam num processo de reação em cadeia. A tecnologia tem uma grande importância para o segmento de microcrédito uma vez que multiplica a eficiência das operações. Com isto, tem-se significativa redução da taxa de juros, permitindo, portanto, conexões das operações em nível internacional.

Gentes: _Quais as facilidades que seu projeto/produto traz para o segmento de Microfinanças e como ele pode beneficiar pessoas?

Tomás: _Trazemos possibilidade de dinheiro mais barato para as instituições de microcrédito e cooperativas em países onde prevalece o alto preço de capital. Com isso, ajudamos as IMFs na ampliação da oferta de recursos e possibilitando atrair mais clientes. Também trazemos possibilidades de se encontrar novos sócios nas cooperativas locais com entrada de dinheiro, mas sem poder ou influencia sobre elas. Queremos fazer da iniciativa algo mais amplo, elevando o desenvolvimento humano a um patamar que vai além da própria existência, não somente as finanças em si; mas proporcionar efetiva interação entre os diferentes setores da sociedade como a academia e pequenos comércios, entre clientes e investidores, bem como toda a sociedade, por meio desenvolvimento de seus potenciais, utilizando da educação e dos meios disponíveis.

Gentes: _ Em que sentido a myelen julga poder contribuir para o desenvolvimento das Microfinanças no Brasil?

Tomás: _Atualmente estamos na fase inicial de entrada. Não começamos ainda a operar de fato, pois procuramos sócios criativos, trabalhadores e entusiastas para replicar o modelo do myelen que já funciona em países como o México, distribuindo capital de maneira mais equitativa. Temos muito trabalho pela frente, pois myelen se difere de muitos outros projetos de desenvolvimento que existem por ai. Não gostamos somente de falar e de ter representações nas diferentes conferências repetindo sempre as mesmas coisas. O que de fato queremos ver, são resultados quantificáveis e palpáveis.

Também procuramos ampliar a colaboração com as cooperativas, organismos que são atualmente o melhor meio de distribuição de riqueza e bem mais democrático. Contudo, nestes casos, vale ressaltar, usamos princípios sustentáveis de business para garantir a viabilidade das operações.

Em aliança com Gentes Microfinanças, vamos construir um banco de dados científicos que pode atingir importância global, já que não existe em forma estruturada em nenhum lugar e que seja voltado especificamente para as microfinanças. Esta ausência de informações, leva ao setor, uma incrível mistura de definições, repetições e duplicidades de termos. Por exemplo, ninguém sabe medir bem o impacto social, mas todos falam sobre isso. Outro exemplo pertinente: Não sabemos fazer uma definição de microfinanças amplamente aceitável e que convirja para um padrão internacional de termos e definições reconhecidos por todos. Verdadeiramente, temos um trabalho gigantesco na nossa frente.

Gentes: _ Quais os interesses e frentes de negócios a myelen quer trazer para o Brasil e porque acredita contribuir para seu desenvolvimento econômico e social?

Tomás:_ Queremos conectar o Brasil com as outras partes do mundo e com milhares de investidores sociais, a fim de baratear o custo do dinheiro, uma vez que o mesmo, neste país, é grotescamente caro devido à elevada taxa de juros que, de certa forma, também é problema para outros países de América Latina. Quem acaba pagando de fato esse custo são os pobres e não os ricos.

Gentes: _ De que forma pretende realizar estas ações?

Tomás: _Bom, no início precisamos ter sócios locais trabalhadores, honestos, tranquilos, criativos e que acreditem de fato em desenvolvimento sustentável. Esperamos que a colaboração com Gentes auxilie na formação parcerias robustas com diferentes órgãos de interesses comuns. Com estes, vamos dar início à construção de uma plataforma local, conectando cooperativas e IMFs com capital inteligente. Mas temos outras ideais novas que estão sendo desenvolvidas, pois o que de fato nos faltam, são sócios locais.

Gentes: _Por fim, que recado ou mensagem você deseja ao povo brasileiro, especialmente o que almeja melhores condições de vida?

Tomás: _O Brasil tem capital humano de grande qualidade e que está entre os maiores existentes no planeta, falando de inteligência, capacidades e ambição. Com este potencial, o povo brasileiro pode conquistar o futuro. Eu como cidadão global gostaria de acompanhar de perto o desenrolar desse grande país, sua cultura, sua economia, seus valores ao longo desse caminho fascinador, complementando com informação e conhecimento e que já dispomos em outras partes do mundo, edificando uma ponte intercontinental, intercultural e intersocial.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

JOVEM DE 25 ANOS É A MAIS NOVA BANQUEIRA DO BRASIL

size_590_banco-perolaQuando dizemos que acreditamos em pessoas, é porque, de fato, existe gente que faz a diferença. É o caso da jovem Alessandra França que aos 25 anos de idade, cria o Banco Pérola. A jovem, filha de um de caminhoneiro e de uma costureira, diz ter aprendido dos pais, o espirito empreendedor.

Sua inspiração de abrir um banco, destinado ao microcrédito, veio aos 16 anos de idade quando leu o livro, O Banqueiro do Pobres,  de Muhammad Yunus, ganhador do Prêmio Nobel. Alessandra, acredita que sua inciativa contribui para um mundo melhor e sustentável, razão pela qual  destina seu talento e habilidades. O banco Pérola, do qual a linda jovem é presidente, está localizado na cidade de Sorocaba e realiza empréstimos de até R$ 5.000 para jovens empreendedores, entre 18 e 35 anos, residentes em comunidades carentes. Em entrevista ao Programa Provocações da TV Cultura, a jovem conta ao apresentador, Antônio Abujamra, seus sonhos e planos para o futuro:

Nós do Gentes Microfinanças, ficamos muito felizes com a atitude de Alessandra. Esperamos que seu exemplo se espalhe pelo Brasil e que o sucesso de seu Banco seja o sucesso de milhões de jovens empreendedores.

Parabéns Alessandra França!

domingo, 29 de maio de 2011

Criar um Mundo sem pobreza requer trabalho e superação de preconceitos corporativos

gentes brasileirasInteressante notar que no Brasil ainda não exista uma discussão séria sobre o papel das microfinanças na redução da pobreza. Há aqueles que acreditam que o microcrédito pode destruir o Sistemas Financeiro Nacional. Um absurdo!Contudo, bom seria, uma vez que   leva bilhões de reais  dos cofres públicos para  cofres de 6 grandes bancos que detêm a maior parte do crédito nacional e para os quais o País tem que pagar 5,7% do PIB com despesas de juros. Tais banco até mostraram-se interessados em operar no ramo de microcrédito; contudo não conseguem administrar os recursos porque não dispõem  de Know How para distribuição da carteira  nesta modalidade e porque preferem destinar seus recursos para operações com  títulos públicos que pagam mais.

Desta forma, os recursos são mantidos na esfera financeira e quase não chegam aos microempreendedores.

Quando as corporações do setor financeiro  realizam um evento para discutir a questão do microcrédito, as intenções são outras. Procuram discutir a sua regulamentação. Evidentemente a regulamentação se faz importante; contudo não é o mais importante a ser discutido. O importante para a atividade,  é de fato, o tomador final que depende do microcrédito para desenvolver suas atividades. Outro grande equivoco é quando se classifica o microempreendedorismo como economia informal. Não se deve confundir um agente que comercia produtos altamente tecnológicos contrabandeados da China com um microempreendedor que cria seu próprio produto com recursos pessoais ou coletivas. Uma coisa é uma cooperativa de costureiras; outra é um grupo de contrabandistas de parafernálias tecnológicas.

Embora ainda existam confusões dessa natureza; algo vem mudando nos últimos anos. Há de fato uma abertura das instituições públicas para promoção das microfinanças no Brasil. O Governo tem procurado não somente apoiar, mas fomentar, por meio do órgãos competentes,  a distribuição de microcrédito. Esta semana, por exemplo, o Branco do Brasil anunciou uma parceria com o Professor Muhammad Yunus a fim de trazer o modelo criando por ele para o Brasil.  Essas iniciativas são muito bem vindas e espera-se que tragam resultados consistentes, colocando as microfinanças em outro patamar de discussão, uma vez que trata-se de um dos mais   eficazes  mecanismos de redução  da pobreza extrema.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Grandes do microcrédito procuram o Brasil para expandir suas operações

images[1]Os gingantes do microcrédito veem no Brasil uma grande oportunidade de expandir seus negócios. Este ano, o Grameen Bank, fundando pelo Prêmio Nobel Muhammad Yunus, anunciou o inicio de suas operações no Brasil a partir 2012. Neste mesmo ano, os europeus anunciaram sua chegada ao país. O grupo de investidores tchecos MYELEN ( My Electronic Loan Exchange Network), que já opera com grande sucesso no México há cinco anos, esteve no Brasil em abril e já realizou parcerias com interessados locais. O blog Gentes microfinanças conversou com exclusividade com seu fundador e diretor executivo Tomas Hes. “ Temos muito interesse no Brasil porque é uma país de grandes oportunidades e gente capaz” Afirmou Tomas, que é responsável pela expansão do fundo. Segundo Tomas, MYELEN é mais que um fundo interessado em ter lucros. “ é na verdade um projeto que busca desenvolver pessoas, esse é nosso negócio” disse Tomas. MYELEN tem o apoio de pessoas de grande reputação na República Tcheca, como e a violinista Gabriela Demeterová que realiza shows a fim de arrecadar fundos para investimento na linha de microfinanças em países emergentes. “Nossa equipe é composta por pessoas com ideias claras”, diz Tomas que fala português muito bem”. Filho de acadêmicos renomados em seu país, economista formado pela Universidade Técnica de Liberece e com grande experiência profissional em instituições financeiras da Europa, Tomas esteve no Brasil em 2003. Foi quando viu a oportunidade de realizar parcerias futuras no país. Seis anos mais tarde retornou decidido a investir seus esforços com o projeto MYELEN. “ Temos muita experiência e objetivos bem estabelecidos.” declara enquanto saboreia rãs fritas com salada de almeirão. Tomas insiste que as intenções do grupo no Brasil é de uma relação duradoura. “queremos uma relação duradoura na linha do comércio justo” disse o jovem executivo, enquanto saboreava uma mistura de suco de manga com açaí, uma invenção sua. “O microcrédito é o negócio que tem a proeza de ajudar as pessoas menos favorecidas a se desenvolverem dignamente”. Mas alerta, “não fazemos caridade, isso não dá sustentabilidade a ninguém, somos um negócio que opera dentro do conceito de Economia Solidária..” Não obstante o grande entusiasmo dos tchecos em operar no ramo de microcrédito no Brasil, não faltou uma certa preocupação de Tomas quando indagado da decisão do Banco Central do Brasil em taxar a entrada de capital estrangeiro em 6%. “Isso não é o fim, mas nos preocupa, uma vez que nosso negócio só é viável com rotatividade de curto e médio prazos”. Assista ao vídeo exclusivo da vinda da MYELEN.COM ao Brasil:

copyright www.myelen.com

sábado, 7 de maio de 2011

MICROFINANÇA, O QUE É?

gentesmicrofinançasMicrofinança ou como costumamos dizer no Brasil, microcrédito, é  a atividade econômica que tem por finalidade distribuir crédito para pequenos negócios ou grupo de negócios que não têm acesso aos meios tradicionais de crédito. Tomemos por exemplo, uma cooperativa de catadores de papelão que precise de dinheiro para compra de uma prensa de papel; mas que encontra dificuldades para conseguir crédito no mercado tradicional, o de crédito bancário.Ou ainda, um pequeno fabricante de telas de alambrado que precise atender uma demanda e para isso tenha que comprar uma máquina e contratar funcionário. Quase sempre essas pessoas não são atendidas pelo crédito bancário. Isto, porque os empréstimos para esse público concentram-se em pequenas quantidades,  os risco são maiores e a taxa de retorno muito baixa,  não compensando para os bancos os custos.Neste sentido,  a microfinança surge como um verdadeiro socorro para os pequenos empreendedores, uma vez que concentra seus esforços na garantia de crédito com taxas de juros mais baixas. Atrelada ao conceito de Economia Solidária, a microfinança, dá novos rumos às pequenas atividades e ao desenvolvimento econômico das pequenas comunidades.Mas atenção, a microfinança não representa uma atividade gratuita, ou sem fins lucrativos. É um negócio. É precisa, por isso, de seriedade econômica para torná-la viável e sustentável. É uma atividade que exige controle constante e árduo trabalho para quem a desenvolve. Não obstante é um negócio de extrema importância tanto no caráter social quanto econômico.Trata-se de   distribuição de crédito em pequenas quantidades; mas que fazem grandes diferenças para os pequenos empreendedores.

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